Produtos de Qualidade são resultado de Qualidade de Vida no Trabalho?

Pode parecer óbvio, mas infelizmente uma coisa não está diretamente relacionada à outra. Produtos de qualidade não dependem necessariamente de qualidade de vida no trabalho ou na vida de seus executores ou dirigentes. Então, quer dizer que não precisamos investir no desenvolvimento dos funcionários, das condições de trabalho, sistemas de ganho, saúde ou em nós mesmos?

Isso já foi e ainda é verdade em algumas sociedades e organizações. No entanto a quebra desse paradigma está sendo mais veloz do que se pode perceber. Vivemos em um ambiente altamente competitivo, estressante e incerto. A tal globalização junto a benefícios questionáveis, tem nos mostrado um outro lado: nossa vulnerabilidade.

Na busca desenfreada por avanços e pela competência, aprimoramos, organizamos, reestruturamos e padronizamos nossos métodos produtivos. Chegamos ao absurdo de institucionalizar e alardear sintomas neuróticos, expressos em máximas do tipo: “Só os paranóicos sobreviverão”, “meu nome é trabalho”, “dar o sangue pela empresa”, entre outros. Até endeusamos e invejamos os maníacos e obsessivos por trabalho, os workaholics. Temos aceitado viver sob estresse e ansiedade constante.

Atualmente ao que tudo indica, algumas daquelas mesmas organizações, acusadas de desumanizar o trabalho, começam vislumbram como saída rentável, a humanização do mesmo. A busca pela qualidade de vida no trabalho é uma das principais angústias que o ser humano está vivendo neste início de milênio. Por mais que nos esforcemos, mesmo atingindo altos níveis de produtividade durante nosso horário de trabalho, acabamos tendo que levar serviço e problemas para casa. Isso sem falar na proclamada tendência de escritórios domésticos (que já pegou).

Na convivência com colegas empresários, executivos e até mesmo junto aos trabalhadores durante treinamentos e cursos, tenho percebido que o estresse tem reduzido a qualidade de vida dos mesmos, pelos mais variados motivos. Fica cada vez mais claro que estamos vivendo em meio a um caos e que a cada dia temos menos respostas certas a dar. Já dizia Chico Buarque a mais de 30 anos: “A gente tem que ter voz ativa, no nosso destino mandar, mas eis que chega a roda-viva e carrega o destino pra lá”.

Também sabemos que precisamos continuar navegando mesmo que ás vezes sem avistar o horizonte. Nossa missão consiste então em trazer para si próprio o controle desse leme, o controle da qualidade da própria vida pessoal. Mas como fazê-lo? Qual melhor caminho ou método a seguir? É possível gerenciar todo esse estresse? Afinal são tantas as teorias.

Acredito que patrões e empregados (ou como se diz atualmente – líderes e colaboradores), tem que tomar uma decisão, primeiramente no plano individual e em seguida no grupal, quanto a que tipo de qualidade pretendem. Em seguida é preciso coragem e sabedoria para reconhecer as contradições e reduzir as expectativas da proclamada “hight performance”.

Por mais estranho que possa parecer, o caminho para a redução do estresse e melhor qualidade de vida no trabalho começa pela aceitação de que o controle não é somente seu, de que não depende somente de você. Paradoxalmente, o que passa a ocorrer é que nesse momento esse mesmo controle controle começa a ser possível. Como preconizou Erich From, ao decidir não ter aquilo que pode ter, encontra-se o verdadeiro poder de ter (ou ser).

O resultado é uma atitude diferente, mais harmônica, sem ansiedade ou sem conflitos de interesses. Abrem-se então os caminhos para a conquista de um “tipo” de qualidade até então desapercebida. Percebe-se que um dos principais entraves é justamente o conflito de expectativas e de opções. A espera ansiosa de uma solução mágica é que acaba em muitos caso por potencializar o estresse. Com qual produto devo ficar? Qual é o melhor? Qual caminho devo seguir? Como posso ser o melhor? Os ditos gurus da auto-ajuda propõem: “se você quer mudar você pode. O poder está em suas mãos”, de preferência com um produto deles.

Na verdade, a aceitação do próprio destino é que nos torna possível uma modificação desse mesmo destino. Pode parecer uma contradição, mas é assim que se processa a mudança. Ao perceber que o melhor caminho se faz ao caminhar e que essa trajetória não pode ser feita sozinha, mas sim em conjunto com todos os envolvidos (parentes, colegas de trabalho, chefes ou até mesmo com a ajuda de profissionais), estaremos abrindo caminhos para um conjunto de energias, emoções, habilidades e experiências cujo resultado (produto), certamente será uma vida de alta qualidade.

Acredito que o principal produto da qualidade deva ser a felicidade, o bem estar, pois como diz uma frase popular: “não importa o que se leva da vida, mas a vida que se leva”.

Artur da Costa Fernandes Filho