Para quê você quer saber o porquê?

Porquê você fez aquilo? Porquê as pessoas são assim? Porquê eu não consigo mudar? Porquê? Porquê? Porquê?

Nós, seres humanos sempre quisemos ter uma explicação para tudo. Aprendemos que através da análise dos fatos descobrimos e justificamos aquilo que nos angustia. E o entendimento sobre essa realidade é o que nos fez capaz de evoluir tecnologicamente e como ser humano. É claro que temos capacidade para isso, basta usá-la. Até na infância temos a famosa “fase dos porquês”.

Descobrimos que a informação e o conhecimento são vitais. Nos ajuda a dar conta da ansiedade frente ao novo, nos dá controle e capacidade de organização, permite mudar aquilo que precisamos, etc, etc.

O que pretendo aqui, não é desqualificar essa procura, pretendo sim ir além e questionar se devemos ou não apenas querer saber o porquê das coisas. Se devemos ficor somente com as respostas aos porquês. O que proponho então é que você acrescente nessa busca o para quê. Experimente.

Para quê estou ansioso? Para quê eu fiz isto ou aquilo de novo? Para quê eu me relaciono desse jeito? Experimente colocar essa questão além dos porquês. Vai parecer estranho. Substitua os porquês quando você fizer uma pergunta a um amigo ou qualquer outra pessoa. Eles geralmente vão dizer: Não entendi, como assim? Ou então, irão logo respondendo o porque.

A resposta ao porquê, geralmente nos remete apenas a uma parte da chave para entender por completo nossas preocupações. O porquê, nos coloca para analisar o passado, nossas prováveis motivações anteriores, geralmente nossas racionalizações. Já o para quê, nos inclina a olhar mais para os fatos em si e para os resultados esperados ou mesmo obtidos. E esses resultados são muito importantes para nós, mesmo que negativos. É isso mesmo, precisamos de resultados que aparentemente não são bons. Temos motivações inconscientes para desejar que algumas coisas dêem errado ou se repitam e então atinjam um objetivo com motivações individuais não aparentes.

Esse processo tem sido explicado por nós psicólogos e auxiliado em nossos trabalhos de ajuda para o desenvolvimento das pessoas há muitos anos. Não pretendo entrar a fundo nessa questão, mas apenas indicar com isso que os para quês podem mostrar que temos os chamados “ganhos secundários”. Isso mesmo, via de regra as respostas aos para quês revelam que pretendemos obter ganhos complementares mesmo através de resultados negativos (por um lado), mas que por outro são positivos.

É preciso que analisemos além dos fatos, das entrelinhas ou do sub-texto. É importante que façamos a leitura além do conteúdo. Experimente por exemplo, prestar atenção na “lógica” da relação, seu o início, meio e fim. Observe o contexto, a história do fato e dos envolvidos. Procure ver o que ele(a), ou o que você realmente poderia “ganhar” com um resultado negativo. Talvez não um ganho lógico-racional e socialmente aceitável, mas um ganho emocional, às vezes socialmente recriminável. Afinal, nossa natureza não é perfeita. A perfeição é uma construção de nossa sociedade.

O que faz parte desse processo é a intencionalidade. Ao objetivar “ganhos secundários”, o fazemos para alcançar algo, que geralmente não está elaborado ou aceito por nós e pelo meio. Sendo assim, chegamos à conclusão de que nada, em se tratando de seres humanos, é por acaso. Nossas ações estão relacionadas ente si. Existe uma lógica causal entre elas. E para entendermos essa lógica devemos ir além das explicações e descrições.

Procurar o para quê das coisas certamente nos ajudará a encontrar e entender um pouco mais sobre nossas angústias, nossas verdadeiras motivações. Mas será que realmente queremos saber… para quê?

Artur da Costa Fernandes Filho