Juntos e Misturados

Lema de supostas relações saudáveis, mas que via de regra aponta para a tentativa de resgate de relação idealizada e presença de pouca empatia.

– “Prá vocês ficarem juntos, tem que se separar”. Há muito que digo essa frase em meus atendimentos. Quando eu atendia casais e depois de um tempo de atendimento, quando os clientes já sentiam mais confiança e vínculo, colocava essa questão. É claro que chocava e que possivelmente quem está lendo até aqui pode estar chocado também. Mas o objetivo era sim gerar um certo impacto.

Um momento para refletir, já que na maioria das vezes os casais procuram atendimento para salvar o relacionamento e, uma fala que aparentemente indicava rompimento, apontava para a necessidade de se repensar a forma como se dão as relações. Atualmente não atendo mais casais. Mas mesmo em atendimentos individuais, tanto em psicoterapia como coaching, essa questão sempre aparece e portanto, usualmente faço tal colocação. Mas vamos a reflexão.

Espere, pense um pouco mais antes de tirar conclusões. Para começo de conversa essa é uma questão que passa pela lógica. Reflita comigo: só há possibilidade de alguma pessoa estar junto com outra ou até mesmo um objeto com outro, se cada uma destes for único, individualizado, correto? Pois ao contrário não estariam “juntos”, mas sim fundidos, misturados, quase homogêneos e portanto sem identidade própria bem definida. Faz sentido?

Então, agora você pode refletir sobre nossas relações pessoais no dia-a-dia. O que geralmente acontece é que por falta de sabermos verdadeiramente quem somos, por falta de nos conhecermos melhor, tendemos a buscar no outro, ou nas coisas, aquilo que muitas vezes achamos que falta em nós.

Claro que não somos perfeitos e completos, mas por falta de autoconhecimento e consequentemente, falta de aceitação de nossos limites (“defeitos”), alguns de nós em algumas vezes, atribuímos ao outro a responsabilidade para ser o que você gostaria ou deveria ou até para que o outro  nos “conserte”. Frequentemente inclusive, cobramos que o outro seja nossa cópia.

A frase popular: “juntos e misturados”, reflete ao meu ver um desejo comum, que visa resgatar aquela união idealizada, desfeita desde nosso nascimento. De certa forma todos em algum momento desejamos algo assim. Contudo, insistir nesse esse tipo de vínculo não é necessariamente saudável.

Acabamos procurando reestabelecer uma sensação a muito perdida; a de estar fundido com a mãe, reestabelecendo aquele “elo perdido”. No entanto, essa unidade só será plena ao respeitar seus próprios limites e aceitar suas próprias características e a partir dessa clareza estabelecer relacionamentos onde cada um é cada um, separados e complementares, não fundidos, vivendo uma confusão pouco ou nada saudável.

Reflita um pouco. Não vamos esgotar aqui esse assunto. Já que esse processo, que chamamos de “dinâmica” consiste num mecanismo bem conhecido pelos psicólogos. Voltaremos a discorrer sobre isso depois. Abraços.