Habilidade Política – Uma competência estratégica para a gestão do estresse do líder – Parte 2

Passo a discorrer a seguir sobre as principais dimensões que compreendem a competência identificada como habilidade política por Pamela L. Perrewé, PhD (EUA) e Gerald R. Ferris, PhD (EUA), dois pesquisadores psicólogos da Florida State University. Estas dimensões são: Astúcia Social; Influência Interpessoal; Habilidade de Criar Redes e Sinceridade Aparente.
Em texto anterior (parte 1) discorri sobre uma conceituação geral a partir dos resultados de pesquisas que eles trouxeram em palestra durante 17º Congresso Internacional de Stress da ISMA (International Stress Management Association), ocorrido na terceira semana de junho deste ano, onde a Habilidade Política é vista como uma competência que pode ser um diferencial no ambiente corporativo, para a redução e gestão do estresse tão comum entre os líderes.

Astúcia Social

Uma das características identificada e destacada pelos pesquisadores é a “capacidade de entendimento eficaz”, uma “astúcia” na percepção dos estressores e na lida do próprio estresse. Entendo essa astúcia como a habilidade de discernimento, de saber distinguir e separar durante a situação estressora ou durante uma reação descontrolada de um colaborador, o que é realmente crítico. Dessa forma é possível identificar e “isolar” os fatores e suas diferentes dimensões, para posteriormente tomar as melhores providências de acordo com cada problema identificado.
Percebo aí uma relação direta com o uso das competências emocionais postuladas por Goleman, pois o gestor num primeiro momento consegue perceber se um eventual ataque verbal deve ser tomado como uma ofensa pessoal ou como uma percepção distorcida de um evento por parte daquele que agride.

O gestor astuto pode perceber, para além de um grito ou de uma palavra dita de forma ofensiva, o que realmente aquele interlocutor está querendo dizer. Ele consegue discernir e separar o que é a atitude agressiva, do conteúdo da queixa e se a mesma procede, para que ele possa valorizar a pessoa que esta ali e também dar os encaminhamentos adequados à situação.

Influência Interpessoal

Outra característica destacada como componente da competência política é a capacidade de influenciar de forma eficaz seus interlocutores e equipe. Entendo que o gestor com competência política ao demonstrar auto controle, discernimento e boa capacidade empática (componentes de inteligência emocional), acaba por conquistar autoridade frente aos outros. A consequência nesse caso seria uma forma de autorização para empreender ações, determinar soluções e cooptar esforços, ou seja, o gestor consegue, frente às situações que causam um estresse elevado, demonstrar que tem auto controle suficiente para, mesmo em meio à tensão, manter o equilíbrio e diferenciar aquelas atitudes e ações que podem ser mais efetivas na solução das situações problemáticas e com isso promover uma redução do estresse dos envolvidos.

Penso também que ao conseguir perceber com clareza os estados emocionais dos outros (capacidade empática), pode tornar claros esses estados e ajudá-los sincronizar seus objetivos pessoais aos da organização em questão. Dessa forma possivelmente contribua também para dirimir as ansiedades talvez advindas de expectativas ou receios ainda não percebidos pelos próprios participantes.

Habilidade em criar redes

Essa habilidade também destacada pelos pesquisadores como integrante da competência política equivale à competência emocional que para Daniel Goleman é chamada “sociabilidade”. Por consequência de suas habilidades interpessoais os gestores criam uma rede de relacionamentos com diferentes pessoas e uma forma de sustentar esses relacionamentos. É a capacidade de lidar com as diferenças e diversidades pessoais.

A competência emocional empatia pode aparecer como um fator de sustentação dessa habilidade, pois via de regra tais gestores conseguem ser mais compassivos e tolerantes frente às dificuldades pessoais de cada um.

Em se tratando da necessidade de reunir esforços para atingir metas e desafios, tenho percebido que esse tipo de gestor consegue articular as exigências e o padrão alto com as dificuldades de cada um. Ou seja, consegue levar a equipe a “encarar” os desafios como oportunidades. A consequência mais uma vez é um cenário de menos queixas e reclamações e mais determinação frente aos estresses.

Também poderíamos articular a idéia de que esse gestor, ao conseguir criar mais relacionamentos com os colaboradores e também fomentar as relações saudáveis entre eles, acaba por obter o apoio social necessário criando uma rede social de apoio que ajuda a todos a lidar com suas dificuldades, resultando mais uma vez em redução e gestão do estresse.

Sinceridade Aparente

Esse foi outro fator apontado nas pesquisas dos psicólogos da State University, como presente em gestores que conseguem reduzir o estresse através da competência política. Não se trata obviamente em simples demonstração de sinceridade. Em minha experiência, tenho percebido a sinceridade aparente como muito marcante em gestores que agem de forma autêntica a qual pode ser aferida através de atitudes coerentes e de condutas íntegras.

Em minha experiência no desenvolvimento das capacidades de gestão do estresse de líderes e organizações e também nos estudos sobre estresse nas organizações, fica muito claro que os gestores que tem condutas contraditórias, que dão “comandos” pouco claros e ambíguos, potencializam eventos estressores já que acabam por induzir erros em sua equipe, gerando desgastes desnecessários além de revelarem, mesmo que não queiram, eventuais demonstrações falsas de sinceridade.