Autopunição como forma de agressão ao outro

Ou, “adoeço para te atacar”. Será possível esse mecanismo?

Sim, é possível e mais comum do que parece. Desde falta de cuidados com a saúde, passando por episódios ocasionais e indo até ao ponto de quadros que necessitam de intervenção médica.  Tempos atrás me deparei novamente com um caso relativamente leve mas bem típico.

A pessoa que eu atendia, passou a descuidar de sua alimentação e além disso também a piorá-la depois que, a seu ver, o seu cônjuge passou a desvalorizar mais acintosamente seus cuidados com sua saúde, através de “brincadeirinhas” verbais (leves ironias) sobre seu cuidado com alimentação e até mesmo criando situações que dificultavam sua saída de casa para a prática de exercícios.

Meu cliente tinha por costume diário, cozinhar descontraidamente somente para si alguns pratos mais naturais, já que os demais membros da família não se detinham com tanto afinco a hábitos mais saudáveis.  Mas a partir do momento em que percebeu que seu cônjuge tinha ciúmes de suas atitudes mais saudáveis, já que estas lhe possibilitavam um corpo mais saudável e que além disso nos momentos da prática de exercícios estaria em contato com pessoas também com “estética tipo saúde”, passou a descuidar da alimentação além de perder a vontade de praticar exercícios. Chegou a manifestar a consciência desse tipo de estratégia alegando uma certa vingança.

Essa vingança neste caso, funcionava como uma emoção reativa e que nos mostra que existe por detrás dela uma estratégia que funciona como um subterfúgio psicológico para evitar que as emoções verdadeiras sejam sentidas. Emoções como a frustração, raiva e tristeza, geradas a partir do momento em que percebe sua dificuldade em posicionar seu prazer pela prática física e alimentação saudável. Dificuldade em dizer algo do tipo: “eu vou sim e você precisa compreender que isso me faz bem, além de que essa minha busca pelo prazer e saúde em nada irá te prejudicar. Te amo e não te trocarei por outras pessoas com corpos considerados esteticamente mais bonitos.” E a partir daí saír para a prática da atividade.

Como se o cuidado com o corpo e saúde fosse algo errado, sem valor. Entendendo-se mais sobre o contexto de vida desse cliente, vimos a saber que há um choque de valores. Seus familiares atuais desqualificam atividades físicas e a saúde, valoriza o sacrifício. Para sua família prazer e conforto são sinais de “pecados”, típico viés de uma formação cristã vivida de forma muito ortodoxa. Meu cliente por sua vez não encontra ferramentas para posicionar sua visão diferente e quieto irrita-se profundamente. Carente, depende da aprovação e afeto do cônjuge e familiares, não os confrontra, pois teme perdê-los.

Então frente os impedimentos para realização de seus desejos, frustra-se ao novamente perceber que seu cônjuge “não é” quem pensava, sente muita raiva por isso e pela pressão para que fique em casa e não o deixe sozinho, fica triste por não encontrar saídas e a partir daí então constrói um estratégia complexa indo contra si próprio ao abrir mão do seu prazer e atacando seu cônjuge comprometendo sua estética através do descuido com alimentação e falta de exercícios, já que percebe que este no fundo desejaria um corpo com uma estética melhor; já que percebe que seu cônjuge “curte seu corpo”. Portanto ao descuidar de sua saúde e estética atinge (vinga-se) na medida em que priva ao cônjuge de um corpo mais bonito e saudável.